Hora De Nos Despedirmos Do Café da Edna

Em meados de junho de 2021 nós viajamos para a Fazenda São Sebastião, em São Tomé das Letras, Sul de Minas Gerais.

Nosso objetivo era desenvolver uma série de pequenos experimentos com fermentação de café junto a nossos queridos parceiros Catarina e Marcos Kim.

Devido a mudanças climáticas durante a entressafra, com um regime maior de chuvas comparado ao ano anterior, a colheita 2021 estava adiantada e nós tínhamos uma janela curta para colher as cerejas para nossos experimentos, portanto optamos por atacar o cafezal da família Kim atrás dos frutos maduros para nossos cafés fermentados.

Nós já havíamos nos preparado por meses a fio, comprado leveduras e calculado os detalhes de cada processo, sempre discutindo com o Marcos como proceder com cada um deles. 
Sabendo do problema com o clima antecipamos em 15 dias a viagem e mesmo assim chegamos nos dois últimos dias de colheita, só haviam cerejas em um único talhão de Catucaí 2SL e a maioria estava vindo passa, com a fruta já seca no pé.

Começou o primeiro dia e nós estávamos ávidos para colocar a mão na massa - ou melhor, nas frutas.

Em um bate-papo no café da manhã a Catarina nos contou sobre uma 'produtora fantástica' e que nós deveríamos conhece-la, pois seus cafés 'eram nossa cara'.

A propriedade dessa tal produtora ficava na cidade vizinha e, de um ponto alto da fazenda, nós poderíamos observar o cafezal dela, em um morro alto que aparecia no horizonte.

Essa produtora misteriosa chamava-se Edna e ela produzia cafés nessa pequena propriedade junto com seu marido Eugênio.
O casal descendia de famílias de agricultores - ela da Bahia, ele da Itália - e a paixão pela terra sempre correu nas veias.


Apesar do interesse nós precisávamos focar nos nossos testes e partimos pro campo.
No final de um dia árduo de trabalho no cafezal, com o céu já escuro, o Marcos propôs que fizéssemos uma sessão de prova de alguns lotes que ele já havia processado no início da colheita, um cupping noturno.

Na mesa estariam dois lotes não identificados da Edna e do Eugênio, misturados às demais amostras por sugestão da Catarina - a gente PRECISAVA conhecer esses cafés.

Começamos a provar os cafés, havia um lote muito doce, com uma coisa complexa acontecendo na boca. Era ele, o café da Edna. 
A torra de amostra não estava valorizando o café, havia algo de fumaça ofuscando suas características e ele passou batido entre as outras 11 amostras.

No final da sessão o Henrique e o Renato, pediram pra levar uma amostra pra torrar novamente em casa, foi quando descobrimos de onde vinha o tal lote - levemente desacreditado por todo mundo na mesa.

Nós costumamos contar a história dos lotes que compramos, os melhores cafés, os mais vibrantes, as jóias raras. Esta talvez seja a história do melhor café que nós (quase) não compramos.

Torrando novamente, uma semana depois e provando em casa nós descobrimos o que você já sabe: que aquele café era muito f*da e que, as vezes as coisas são uma questão de sorte. Sorte de ter parceiros como a família Kim, sorte de prestar atenção aos menores detalhes.

Avance no tempo e saiba que: nós conhecemos a Edna e o Eugênio pessoalmente e ficamos deslumbrados com o amor que eles colocam em cada aspecto do seu negócio, no trato com a terra, no manejo do terreiro.
Nós compramos mais que um lote de café, nós compramos uma nova parceria, que tem tudo para durar muitos e muitos anos.

Tudo isso pra dizer que, não somente esse lote está acabando e talvez seja a última chance de prova-lo, mas que muitos outros virão e a gente não vê a hora disso acontecer.


 


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